Agora percebo.
Percebo o porquê de teres partido e compreendo também o motivo que te levou a fazer tal coisa. Fizeste-o, mas tenho toda a certeza do mundo que não levaste a cabo de ânimo leve. Sei que para além de teres sentido a dor no teu corpo, na tua alma, ainda houve sofrimento no teu delicado coração por não teres forças. A força de que precisavas para seres salva das malditas células, que se alastraram no teu corpo e se replicavam sem pedir permissão, foi diminuindo no decorrer dos dias, tal e qual como o bater do teu engenho. Possuiu padecimento no teu grande e bondoso coração por não conseguires vencer mais esta batalha da tua vida, mas, sobretudo, por encerrares o seu ciclo.
Um ciclo cheio de algumas vivências que tiveste a oportunidade de me contar e eu terei todo o privilégio em passá-las de boca em boca para que nada teu seja esquecido. Apesar de ter tentado combater contigo tudo o que estava a passar, sei que todo o meu alento não foi suficiente para que continuasses a permanecer comigo, connosco. E peço desculpa por isso: desculpa-me por não te ter conseguido manter por cá, como todos nós desejávamos, mas a tua doença tornou-se invencível com o passar do tempo. Mas Inês, agora percebo a razão de teres fechado os olhos, quando ninguém se encontrava do teu lado. Porque não havia nada nem ninguém que te impedisse de abalar e terminar com o teu sofrimento.
Hoje, hoje sei que a tua partida não só causou tormento aos que cá ficaram mas também, e principalmente, a ti, sendo a tua dor, para mim, inimaginável. E sabes, assimilo ainda que todas as tuas energias se foram desgastando, porque guerreaste até não poder mais; foste uma autêntica guerreira – a minha guerreira. Mas se me perguntares se acho que isto foi o melhor para mim, para nós, eu responderei, com as lágrimas já nos olhos, e cheia de saudades, que: o melhor para ti foi e será sempre o melhor para nós. Apesar do enorme vazio que deixaste.


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