Tenho escrito imenso para ti e sobre ti, tenho tentado procurar palavras que afaguem as saudades que tenho tuas, mas não consigo passar um único dia desta minha vida sem que me lembre de ti, sem que o meu coração se torne pequenino e apertado por não estares aqui. Eu sempre fui muito consciente, muito racional e tu detestavas que assim o fosse, achavas que eu tinha em mim todas as particulas de uma sonhadora, e mesmo assim contrariava essa minha natureza, e no meio da minha consciência sobre tudo o que me rodeava, que nos rodeava eu sabia que um dia irias desaparecer, eu sabia-o tão bem. Acho que o problema é que para mim esse um dia tinha um som tão eterno, tão sem fim, o que mais me doí é saber que hoje tudo o que tenho de ti são recordações.
Deixaste de estar efectivamente aqui, e acho que desde daquele dia tornei-me mais inconsciente e muito mais sonhadora, parece muito contraditório eu sei, só que parte de mim ainda acha que te vai ver, e ainda sonha com as nossas longas e silenciosas conversas nas tardes de verão, ainda me apetece correr para te ver chegar, ainda procuro o teu colo para que me contes histórias, essas histórias do teu tempo que no fundo é também meu. Sinto falta do teu olhar atento, preocupado, e ao mesmo tempo meigo, sinto falta das tuas mãos grandes na minha cara, desse teu cheiro. Saudades da tua voz a chamar-me pequenina, dos teu bilhetes engraçados e divertidos nessa tua letra tão feia avô.
Desde pequena que me recordo de chegar e correr tudo á tua procura, sempre soubeste ser uma criança para mim, quando roubavamos o pão quentinho à avó, o teu entusiasmo quando fingias comer os meus bolos de areia, e deixavas que fosse tua professora quando no fundo eu nem sabia bem o que fazia. Como eu corria até ao tractor com uma maçã na mão para que lentamente me fosses dando pequenas fatias, que eu devorava com a pressa de ir brincar, e acho que com o tempo fui deixando de ter tempo para ti, não porque gostasse menos de ti, mas porque a minha idade foi decididamente estupida, ainda assim foste sempre a primeira pessoa a quem contei tudo, dos meus dramas, e amores de desamores, incentivaste-me a escrever e foste sempre meu leitor mais atencioso, lembro-me de te ter escrito um livro que guardaste até ao teu último dia, prometi-te que jamais deixaria de escrever para que onde quer que estivesses pudesses ler-me.
Não tenho como te agradecer, nem como homenagiar o grande homem que foste e para mim sempre serás, sei que as vezes ainda fico zangada contigo, mas eu tenho muitas saudades tuas e agora quando mais preciso nunca te vejo, mas eu sei que de alguma forma estarás sempre comigo. Confesso-te que sempre que te escrevo perco conta as lágrimas que escorrem pela minha cara, mas prefiro que assim o seja, enquanto chorar, sorrir e sentir esta dor da tua ausência sei que todo o imenso amor que te tenho continua ali, e vai continuar e vai crescer todos os dias da minha existência, e até mesmo para além disso, que pelo menos o nosso amor seja imortal meu querido avô.

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